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Dia desses estava em um bar conversando com uma amiga que também acabou de se formar na faculdade. Antes que nossos pedidos pudessem chegar na mesa, comentei com ela sobre como todas os outros amigos que estavam mais ou menos nesse momento da vida tinham me feito a confissão de estarem se sentindo meio perdidos e como estavam envergonhados e/ou tristes por isso. Comecei minha cota de confissões da noite falando sobre o quanto era difícil abraçar esse processo de virar adulto oficialmente. Crescer é uma experiência inconveniente. 

 

Dia desses eu estava conversando com uma amiga, que também acabou de terminar a faculdade, sobre como todo mundo que eu converso - que está na mesmo momento de vida que a gente - está se sentindo perdido. E de como é difícil e dolorido abraçar esse processo de virar adulto oficialmente. De como é difícil e dolorido crescer. Crescer é uma experiência inconveniente. 

 

Tanto eu quanto ela somos pessoas extremamente otimistas. Logo, foi um tanto quanto constrangedora e complicada a sequência de confissões daquela noite, juntas elas foram capazes de nos levar a aceitação do fato de que haveria sofrimento na vida. 

Quando se assume ser uma pessoa otimista, a última coisa na qual se quer pensar é que as coisas vão dar errado e que você (inevitavelmente) vai sofrer. É uma droga pensar no seu plano inicial tão lindo e perfeito não acontecendo como havia sido descrito no papel. 

 

Eu e ela somos duas pessoas extremamente otimistas, falamos e confessamos uma para outra o quanto era difícil aceitar que haveria sofrimento na vida. Porque quando você é otimista, a última coisa que você quer pensar é que as coisas vão dar errado, que você vai sofrer, que o seu plano inicial que parece tão lindo e perfeito não vai acontecer como você tinha escrito no papel. 

 

 

Não me ache alguém inocente ou hipócrita. É importante entender que tanto eu quanto a maioria das mulheres da minha faixa de idade (vinte e poucos) fomos criadas com a crença de que nascemos destinadas para algo grandioso e único. Com a constante afirmação de que éramos especiais e vivíamos um daqueles roteiros Hollywoodianos (típico dos Millennials https://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2017/04/17/girls-mostrou-que-millennials-sao-geracao-ferrada-mas-que-tem-esperanca.htm). Se corrêssemos atrás dos nossos sonhos seriamos recompensadas e viveríamos algo incrível, sendo realizadas sendo autênticas. 

 

Outro ponto é o fato de estamos nos tornando adultas em plena primavera do empoderamento feminino. Estamos crescendo aprendendo a necessidade de sermos mulheres fortes. Lutar, se fazer ouvida, assumir seu lugar de igualdade na sociedade e seguir em frente são reforços constantes.

 

Eu amo viver em uma época onde posso passar por uma fase tão importante da vida com estímulos e recursos para me tornar uma pessoa segura do meu papel, empoderada e com uma visão clara da minha identidade, direitos e deveres. Mas toda essa atmosfera, somada às crenças reforçadas na infância, criam uma pressão absurda. Acabamos nos sentindo extremamente culpadas ao não segurar a onda. Quase desertoras de toda esse padrão de força que nos foi entregue. 

 

E aí começa essa crise quando damos o nosso melhor, fazemos nossa parte, colocamos a cara a tapa, somos verdadeiras e entregamos tudo de nós… mas as coisas não saem como o planejado. 

 

Não foi isso que tinham me contado sobre a vida. Não é isso que deveria acontecer quando você vai atrás do que ama e dá o seu melhor. Essa aflição aqui dentro do peito não estava no manual. Porque ela apareceu? Porque ela não passa instantaneamente? 

 

 - nao fomos criados para sentir dor, fomos criadas para sermos mulheres fortes, que superam, seguem em frente, sem tempo ruim ou choramingar pelos cantos. E isso cria uma pressão absurda e nos sentimos extremamente culpadas ao não segurar a onda. Quase desertoras da força que nos foi passada. - 

 

 

Uma das verdades mais libertadoras que podemos aceitar é: viver dói. A gente vai passar por decepção, desistência, desinteresse, egoísmo, perdas, desilusões, ódio, rejeição, falta. Sem nenhuma opção de escape, uma hora vai doer para caramba. 

 

O sonho que você batalhou para construir pode não acontecer como planejado. O emprego dos sonhos pode ser um saco. Aquele relacionamento que era seu mundo pode ser extremamente tóxico. Seus amigos vão te frustrar. Você vai ser iludido. Vai achar que conhece alguém, mas vai ser surpreendido da pior maneira possível. A insegurança e o medo de dar errado vão bater na sua porta. Vai achar que está todo mundo indo super bem obrigada, quando você nem sabe como vai chegar até amanhã. E essa sensação de perder o chão, do inesperado, da agonia de perceber dar errado é inexplicavelmente dolorida. 

 

Mas uma das verdades mais libertadoras que podemos acreditar nessa vida é: viver dói. Vai doer. Uma hora vai doer. O sonho que você tinha pode não acontecer do modo como você planejou, o emprego que você tanto sonhou pode não ser tão legal assim. Você pode perceber que aquele relacionamento, que para você significava o mundo, na verdade é extremamente tóxico e você vai precisar abrir mão. 

 

Por mais que a gente queira, não tem para onde correr. Viver dói. 

 

Depois de cantarmos todo o refrão de Promiscuous, da Nelly Furtado, tocada por um dos DJs mais incríveis que já presenciei na vida em alguma versão realmente boa que eu nunca tinha ouvido antes, lembrei de uma frase extremamente clichê que se encaixava perfeitamente na nossa discussão: “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional” (segundo o Google, Drummond, Gandhi e Renato Russo são os autores da mesma). 

 

Viver dói. Mas tem uma frase que eu também falei nesse dia, quando a gente estava juntas, compartilhando a vista de um bar lindo ao ar livre, com um dos DJs mais incríveis que já ouvi tocando ao fundo, que é extremamente clichê, mas que se aplica muito muito muito mesmo a toda essa conversa: a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional (segundo o Google, Carlos Drummond de Andrade, Gandhi, Renato Russo e Tati Bernardi são os autores dessa frase). 

 

Pela primeira desde que me lembro, precisei discordar de uma declaração auto ajuda. Sem rota de fuga, o sofrimento vai chegar. Podemos não viver uma vida miserável, nos jogando pelos cantos sentindo pena de nós mesmos em 97% do tempo (segundo minhas estimativas). Mas é importante viver os outros 3%, sofrer encarando isso como uma parte importante no constante processo de amadurecimento que é viver. Mesmo tendo poder para escolher até onde vamos nos entregar, não dá para simplesmente pular essa desgostosa etapa da evolução. 

 

Mas a verdade é que você vai sofrer. Você não vai viver uma vida miserável, ou se jogando pelos cantos, sentindo pena de você mesmo, pelo menos 97% do tempo, eu acho. Mas é importante viver esses outros 3%, é importante sofrer. Sofrer é importante. Mas precisamos escolher até onde esse sofrimento vai, até onde a gente se entrega. Mas é necessário sentir a dor. 

 

Na minha primeira sessão de terapia contei para psicóloga sobre uma das decisões mais difíceis que eu já havia tomado: colocar ponto final em um relacionamento, que era muito especial para mim, quando percebi estar dependente emocionalmente. Eu estava uma bagunça por dentro e expliquei para ela o quanto sabia que era importante viver a fase do luto, mas também de como eu tinha muitas coisas para fazer e isso não era prioridade, enfatizei com convicção a recusa em me entregar para aquela tristeza e constante vontade de chorar. 

 

Ela me perguntou há quanto tempo tínhamos terminado. “Uma semana”. Ela sorriu, anotou alguma coisa no papel e me olhou nos olhos com uma serenidade surreal: 

 

— Dê tempo para você. Se permita não querer sair da cama. Você precisa ter paciência com a dor, porque uma hora ela passa. Mas se a gente suprime o sofrimento e bota banca de forte, aquilo fica reprimido lá e uma hora estoura. E quando estoura… é bem feio. 

 

Ter paciência já é em si uma tarefa desafiadora. Ter paciência com a nossa dor é quase utópico de se especular. Quem tem tempo para ficar mal? Aliás, quem quer abraçar sua dor e aceitar que ela vai ficar hospedada por um tempo? É um nível de consciência e maturidade que eu até tenho medo de atingir. 

 

Sei que a gente aprendeu que precisa engolir o choro e continuar. Também sei que em alguns dias não existe outra opção a não ser essa (http://modices.com.br/comportamento/sobre-ser-millennial-trabalho/), mas a gente não pode entrar no caminho de ignorar a dor, de abafar e colocar ela debaixo do tapete. 

 

É preciso sentir todos os sentimentos. Não querer sair no fim de semana para ficar em casa assistindo Netflix e comendo brigadeiro, chorar ouvindo sertanejo e se permitir não sair da cama. Seja sincero, ao menos com você e assuma sua dor. Não dá para fugir do processo, principalmente tendo a certeza de que é uma FASE e vai passar. Se dê tempo para processar os acontecimentos. 

 

No dia em que falei “não podemos mais ser amigos” para uma das pessoas mais legais que conheci, chorei pro cinco horas seguidas. Os 40 primeiros minutos dividindo Uber com ela. E eu sei que isso tudo parece muito dramático, mas naquele momento (em um lapso de lucidez e sabedoria) eu sabia que reprimir aquela dor ia me trazer serias consequências depois e como naquele dia eu já estava tomando decisões difíceis pelo bem da minha saúde emocional, essa entrou no pacote. Então eu chorei. Muito. Depois me forcei ignorar a dor (o que foi péssimo, meu lapso de lucidez foi bem breve), mas logo após a sessão de terapia desabei me entregando ao processo. 

 

E abraçar esse processo quebrou grandes paradigmas na minha vida. Um deles foi o de que eu precisava ser forte o tempo todo.

 

- TRABALHAR MAIS O dê tempo ao tempo, viva o momento da dor, não fuja, passe pelo processo sabendo que ele vai passar, não é para sempre

 

Na minha primeira sessão de terapia, eu contei para minha terapeuta sobre uma das decisões mais difíceis que eu já havia tomada. Um dos traumas mais complicados que eu já vivi. Ela me perguntou há quanto tempo isso tinha acontecido e aí eu comecei a falar para ela o quanto eu não queria me entregar, mas o quanto era importante viver o luto daquele relacionamento, mas que eu tinha muita coisa para fazer, então eu não tinha tempo de viver o luto. Ela me perguntou: “Há quanto tempo vocês terminaram?”, eu respondi “Uma semana”. Ela riu. Anotou algo no papel, provavelmente sobre a minha ansiedade, e acenou a cabeça declarando “Dê tempo para você, se permita não querer sair da cama, se permita não querer fazer nada. Porque quando a gente suprime o sofrimento e bota banca de forte, aquilo fica reprimido lá e uma hora estoura. E quando estoura, meu amigo… é feio.” 

 

Quase todo dia eu leio a Bíblia e lá tem uma passagem que vem fazendo cada vez mais sentido para mim. Nela, o rei mais sábio que já existiu disserta sobre como existe um tempo certo para todas as coisas na terra, inclusive tempo de chorar e tempo de sorrir. 

 

Por mais difícil e decepcionante que seja, precisamos aceitar que na vida vamos viver tempos de chorar. Então, afunda a cabeça no travesseiro e chora. Precisamos aceitar que crescer é difícil e vai vir recheado de situações dolorosas. Então, coloca seus fones de ouvido, dando play numa sofrência de respeito e deixa doer. 

 

Mais importante do que isso, não use máscaras com quem importa para tentar esconder as feridas abertas. Mostre onde está ardendo e pergunte se ela também precisa de ajuda. A verdade é que ninguém está bem o tempo todo. É importante demonstrar isso para quem é alguém na nossa vida e se colocar disponível para receber o mesmo de volta. Não estamos tão sozinhos quanto pensamos. 

 

Tem uma frase na Bíblia que eu gosto muito, ela diz que existe um tempo para todas as coisas. Tempo de sorrir e tempo de chorar. A gente precisa aceitar que na vida vai ter tempo de chorar, então chora. Aceita que crescer vai ser difícil, vai doer. Então deixa doer. E quando você for conversar com um amigo, se ele for amigo de verdade,  não coloca uma capa de forte-que está tudo bem. Se quiser chorar com ele chora e ouve o que ele tem para dizer. De verdade. Porque no fundo no fundo, ninguém tá bem o tempo todo. E é importante que a gente demonstre isso para quem é alguém na nossa vida. É importante que a gente receba isso deles também. 

 

Entenda bem, não estou dizendo para você se entregar para depressão. De forma alguma! A grande questão é a importância de viver o momento de dor e conseguir colocar para fora tudo o que poderia estar te travando, dessa forma você vai ser capaz de construir uma força genuína vinda de uma melhora sincera, verdadeira e enraizada. O que vai te dar força real para continuar. 

 

Quando você segue a partir desse lugar de cura, avança muito mais e entra em uma nova estação na sua vida, com novas metas, desafios e perspectivas - até chegar em um estágio onde vai precisar mudar de nível outra vez. Mas para mudar de nível vai ser necessário viver (mais uma vez) o desconforto, algo vai doer. Só que isso te liberta, te joga para frente, uma nova estação. Esses ciclos vão acontecer durante nossa vida inteira.

 

Não tô dizendo para você se entregar para tristeza, se entregar para a depressão. Não. É importante sofrer o momento de dor, é importante sofrer o momento de perda para que você consiga colocar para fora tudo aquilo que poderia estar te travando, para que você seja sincero com você mesmo e consiga ter uma força genuína, verdadeira e enraizada para continuar. Porque quando você dá continuidade desse lugar de cura, avança mais e mais e cresce mais e mais, até chegar em um estágio onde você vai precisar mudar de nível. Mas para mudar de nível você vai precisar viver um desconforto, algo que vai doer. Mas isso vai te libertar, te jogar para frente, para um outro estágio. E vai ser assim a vida inteira.

 

Teria sido ótimo pedir a conta do bar naquela noite podendo chegar à conclusão que uma hora isso para, deixa de doer e nós alcançamos um estágio onde não seremos mais esticados. Mas não foi isso que rolou. Na realidade, entendemos que se um dia isso parar significa que estaremos estagnados. 

 

E aí, o que você escolhe? Viver nessa zona de conforto querida, numa constante felicidade ludibriada pelo já familiar, ou aceitar a dor? Se jogando numa jornada de estar constantemente indo além, vivendo momento de muita dor, mas também momentos de alegria indizível. 

 

Viver dói. E tudo bem ser assim.

 

 

Eu queria dizer que uma hora para, que uma hora deixa de doer e que uma hora a gente deixa de ser esticado. Mas essa não é a verdade. Na realidade, se um dia parar significa que você vai estagnar. O que você escolhe? Ou você vive nessa zona de conforto querida, numa constante felicidade ludibriada pelo que é conhecido, ou você aceita que dói. Que viver dói. Se joga numa jornada de estar constantemente indo além. Vivendo momentos de muita dor, mas também vivendo momentos de alegria e realização incríveis.

Viver dói. E tudo bem ser assim. 

- dê tempo ao tempo, viva o momento da dor, não fuja, passe pelo processo sabendo que ele vai passar, não é para sempre