Perdoar é extremamente injusto

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Acho um tanto quanto engraçadas e curiosas algumas das definições da palavra "perdão" no dicionário. As primeiras descrições não são acompanhadas de muitas surpresas. "Absolver pena, dívida, ofensa", super ok. Mas o último ponto da longa de lista de explicações sobre o que significa perdoar, me deixou um tanto quanto desnorteada, parecia não fazer sentido: "Evitar trabalho, esforço etc. a si mesmo; poupar-se"

Depois de analisar por um bom tempo todas as palavras da frase, comecei a refletir sobre um trecho polêmico de um dos meus livros prediletos (Maravilhosa Graça, do Philip Yancey. Qualquer um que quer entender mais sobre perdão (e ser perdoado) + ama referências de filosofia, teatro, música, cinema e história vai amar loucamente esse livro - sem exageros ou drama nessa recomendação): 

O perdão pode ser injusto - e ele é, por definição -, mas pelo menos fornece um meio de interromper a dedicação cega da retribuição.
— Philip Yancey

O perdão não funciona no mundo real

Perdoar não é um ato natural. E não, essa não é uma afirmação hiperbólica. É inegável admitir que vivemos na lei da selva, aqui se faz, aqui se paga - vence o mais forte. Então, aprendemos que se alguém é mal com você, essa pessoa deve pagar por isso. 

É só pararmos para ver o tanto de ditados populares que seguem justamente essa linha de "você vai pagar exatamente pelo o que fez":  Tudo o que vai, volta. Tomou, levou. Quem diz o que quer, ouve o que não quer

Deixando bem claro, eu não tenho dúvidas de que todos nós pagamos pelas consequências de absolutamente cada uma das nossas ações, porque o Universo (e as suas leis) não deixa nada escapar. 

Mas, ao meu ver, estamos deixando essa mentalidade roubar uma boa parte da leveza na nossa vida. Já reparou que quando alguém nos magoa fazendo algo capaz de nos deixar tristes ou chateados, queremos ajudar o próprio Universo a fazer essa pessoa pagar?

Ao pensar no bendito ser humano, temos profundos sentimentos de raiva, ódio e uma vontade inegável de que ela seja triste e tenha uma vida menos feliz do que a nossa (ver esse querido sofrendo um pouquinho não parece nada mal, certo?). Queremos desesperadamente um acerto de contas, onde estaremos por cima e eles sempre alguns degraus abaixo. 

O veneno escondido na falta de perdão

A vingança é uma paixão de acerto de contas. É um desejo ardente de devolver tanto sofrimento quanto o que alguém lhe infligiu. [...] O problema da vingança é que ela nunca alcança o que deseja; nunca chegará ao empate. A justiça nunca acontece. A reação em cadeia iniciada por cada ato de vingança sempre segue seu curso desimpedida. Ela aprisiona ambos, o injuriado e o injuriador, a uma escada rolante de sofrimento. Ambos são impedidos de prosseguir na escada quando se exige paridade, e a escada não para nunca, nunca deixa ninguém descer.
— Lewis Smedes

Eu costumo dizer que não perdoar alguém é tomar veneno esperando que o outro morra. E é aí que entra o motivo de, para mim,  aquela última definição do dicionário ter se tornado tão clara: perdoar é evitar trabalho e esforço de si mesmo.

Quando estamos gastando tempo e energia retendo perdão e não liberando essa pessoa do nosso coração e mente, estamos nos contaminando com pensamentos e sentimentos negativos toda vez que pensamos a respeito do sujeito. O que cria aquela sensação de que tá tudo bem, mas algo tá estranho (ela é mais comum do que você imagina). 

Perdoar não é nada fácil e em nenhum momento desse texto quero negar essa verdade. Não é algo que acontece de forma orgânica, principalmente dentro do modelo de sociedade no qual todos nós vivemos. 

Na verdade, perdoar é um processo que começa com uma decisão. A decisão de deixar a pessoa ir. Criando uma resolução clara de ao pensar nela, de simplesmente dizermos: "eu te deixo ir, eu te perdoo". Indo contra o costume de se entregar a uma enxurrada de pensamentos ruins sobre como ela errou com você. Aceite que passou (mesmo que ainda sinta dores). 

Enquanto isso não acontecer, teremos todos aqueles sentimentos ruins, provocados pela pessoa, constantemente reavivados ao pensarmos nela, vermos uma postagem, esbarramos sem querer na rua. Um constante mal estar que toma conta de todo o seu corpo, capaz de começar ao som de um único nome (você sabe qual). 

Perdoar é a decisão mais difícil e injusta que existe

Então ela vai escapar? Bom, ninguém escapa de nada. Tudo gera consequências. Perdoar não é aprovar o que foi feito, mas simplesmente confiar que Deus/Universo vai cuidar de tudo e não é seu papel fazer justiça com as próprias mãos. 

Perdoar também não cria um relacionamento, você só aceita deixar de ser consumido pela dor e raiva que vem deixando sua capacidade de amar extremamente prejudicada, minando seu potencial em absolutamente todas as áreas da vida. 

Se você não viu A Cabana, preciso avisar que estou prestes a dar um mega spoiler (e se você ainda quer ver A Cabana sem spoilers, pode pular essa parte).

[SPOILER] Em um determinado momento do filme, o pai da menininha que morreu precisa perdoar o assassino da filha. Então ele vira para o Pappa (que no caso é Deus) e fala: "Eu disse que eu perdoo, mas eu ainda sinto raiva". O Pappa explica que isso é normal, ninguém consegue se curar do sentimento instantaneamente, quando você perdoa alguém você simplesmente solta o pescoço dela, mas talvez precise falar "eu te perdoo" mil vezes antes de ficar mais fácil. A única coisa certa é que vai ficar mais fácil. [/SPOILER]

E é exatamente isso. Quando eu decido perdoar alguém, eu decido liberar essa pessoa, mas a maneira como ela me faz sentir não vai simplesmente embora. Preciso assumir o compromisso de repetir para mim mesmo, sempre que a pessoa passar pela minha cabeça: "eu perdoo você, eu perdoo você"

Mesmo com todas as minhas explicações, é bem possível que você ainda ache isso tudo muito injusto, já que essa pessoa simplesmente não merece ser perdoada. Mas, abraçando as palavras do meu amado Philip Yancey: PERDOAR É INJUSTO. 

É muito melhor ser feliz do que ter razão. Além do mais, enquanto não liberamos alguém através do perdão, ela está constantemente presente na nossa vida, mesmo que vocês já não se falem mais. Já que suas energias estão inquestionavelmente focadas nela. 

Essa questão de perdoar não é de maneira nenhuma uma coisa simples. [...] Dizemos: ‘Muito bem, se o outro se arrepender e pedir meu perdão, eu perdoarei, eu desistirei’. Fazemos do perdão uma lei de reciprocidade. E isso não funciona nunca. Porque ambos dizemos a nós mesmos: ‘O outro tem de tomar a iniciativa’. Daí, fico observando como um gavião para ver se o outro vai sinalizar-me com os olhos ou se posso detectar alguma pequena indicação nas entrelinhas que demonstre que está arrependido. Estou sempre pronto a perdoar...mas nunca perdoo. Sou justo demais.
— THIELICKE, Helmut. Waiting, cit., p.112

Aceita que dói menos

Então, perdoe. Aceita que o perdão é algo que precisa ser implementado na nossa vida como uma prática diária. É um processo para o qual precisamos nos entregar.

Ao entrarmos nesse processo de perdoar, liberar pessoas e não ficarmos mais nutrindo ódio ou sentimentos ruins por ninguém, nos tornamos pessoas mais leves e felizes com a nossa vida. Adotando uma visão muito melhor e mais clara do mundo, já que aceitamos que as pessoas vão errar e causar decepções. 

Perdoar não é esquecer o que aconteceu. Mas é dar um passo para que, no futuro, você possa olhar para cicatriz do machucado que alguém fez e aquilo não doa mais

Tome um passo (corajoso) para uma jeito de viver mais leve, simples; recheado de amor e reciprocidade do mesmo. Quando você passa a ser melhor em perdoar pessoas, se torna melhor no auto perdão. Aquele história de ter graça com a gente mesmo.

Além do mais, quando tiramos alguém do nosso coração, do espaço morto que só nos faz mal ocupado por ela, abrimos espaço para receber novas pessoas e bons sentimentos. o lugar antes ocupado por tristeza ódio e rancor, se torna livre e limpo para receber (ótimas) novidades.

Então, decida liberar pessoas hoje. Perdoe mesmo parecendo injusto. Você merece uma vida mais leve e feliz.