Manda a sua alma calar a boca

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Quando comecei a pensar nesse texto, um trecho de música veio muito forte na minha cabeça. Ele é cantando por uma das minhas bandas prediletas há quase 10 anos e segue assim: 

I’ve got excuses for all these things
That I’ve tried, in my life

Eu tenho desculpas para todas essas coisas
Que eu tentei, na minha vida
— Misery, The Maine

É meio constrangedor assumir, mas por muito tempo me identifiquei com essa letra

Eu procrastino, tu procrastinas, nós não andamos

Posso começar falando de mim? Acho que você vai se sentir mais confortável e não ofendido, pelo menos para início de conversa. 

Eu já fui (e preciso me policiar para não continuar sendo) alguém muito bom em criar desculpas. Para tudo. Desde justificar meu pedido de demissão, passando por não assumir responsabilidades, não conservar amizades, ir até o fim em planos, ou simplesmente não ter foco. 

No geral, enxergava essas coisas como algo que parecia muito pesado, talvez só não fosse o momento certo (eu dizia). Ao menor sinal de rotina ou desconforto, eu dizia adeus. Por causa desse comportamento, acabei abrindo mão de experiências que precisava ter vivido, adiei diversas questões na minha vida. Me tornei fraca quando tinha tudo para ser forte. 

Mesmo que por fora tudo parecesse super bem resolvido e eu me portasse como alguém entendida dos motivos pelos quais tomava aquelas decisões, no fundo eu estava inventando uma desculpa para não fazer algo que me arrancava da zona de conforto

A zona de conforto nunca foi tão desconfortável 

Mas chegou um momento onde se tornou insustentável continuar na zona de conforto. Era pesado demais. Não dava para respirar. 

Comecei a ver todos ao meu redor progredindo, indo além e rompendo barreiras. E mesmo com diversas pessoas achando que eu estava indo na mesma direção, lá no fundo eu era completamente assombrada por todo o tempo no qual eu me mantive criando desculpas. Tinha a certeza absoluta de que esse "tempo perdido" estava prestes à bater na minha porta, para me cobrar a conta das decisões imaturas tomadas nos últimos anos. Foi quando precisei acordar. 

Sendo bem sincera, acho que essa hora chega para todo mundo. Talvez mais cedo para alguns do que para outros. É um banho de água fria necessário entender que a jornada para viver a vida dos nossos sonhos não se parece nem um pouco com um sonho. Ela é acompanhada de rotina, diligência, persistência, algumas lágrimas e dias que podem não parecer muito emocionantes. Lembra o que eu já escrevi sobre rotina e vida adulta?

É preciso ser maduro o suficiente para entender que uma soma de sacrifícios, pensando lá na frente, é capaz de te preparar para viver seus sonhos. Uma estrutura precisa ser criada para que a gente não desabe quando cresce. 

Três em um

Acredito que somos seres tricotômicos. Formados por corpo (nossas necessidades físicas), alma (casa dos pensamentos e emoções) e espírito (o guia sábio e centrado). 

Na maior parte do tempo, a alma funciona como uma criança mimada. Ela é inconstante e imediatista. Já reparou como suas emoções podem mudar drasticamente ao longo do dia? Sou só eu que tomei decisões que pareciam urgentes no momento, caso de vida ou morte, mas depois se revelaram extremamente estúpidas e desnecessárias? 

Quando vivemos uma vida guiada pelos desejos da nossa alma (na maior parte do tempo), consultando o espírito de forma escassa, fugimos de qualquer situação capaz de nos puxar para fora da nossa zona de conforto

Isso significa pular para fora do barco toda vez que o amadurecimento está para chegar, sem nunca conseguir realizar totalmente nosso potencial. Já que ele só é esticado e plenamente desenvolvido quando colocamos o pezinho para fora do conhecido. 

Enquanto as desculpas e justificativas continuam ficamos sem dar passos para frente. Não fazemos o que é necessário ser feito, como consequência não chegamos onde deveríamos chegar. 

Agora ou nunca

Nesse ano precisei parar com as desculpas e me jogar em um banho de realidade. Assumindo para mim mesma verdades que neguei por muito tempo. Precisei tomar uma série de decisões que fez as pessoas ao meu redor ficarem confusas, de início nem a minha família entendeu muito bem os rumos que eu havia decidido tomar. Era tudo muito novo. Para todos. 

Mesmo com conselhos preocupados e pedidos calorosos, no fundo eu sabia que era agora ou nunca. Estava cansada de ser refém das minhas próprias desculpas. Nada pode ser pior do que sentir ser prisioneiro de si mesmo. 

Então, meu desafio de hoje chega para sacudir as estruturas por aqui e por aí, com você: pare de arranjar desculpas e vá para fora.

Abrace a parte desconfortável da vida. Crescer é uma sucessão de escolhas onde deixamos de lado aquilo que queremos para buscar as coisas das quais precisamos.  Dói bastante. Vale a pena. 

Uma das coisas mais deturpadas que já nos ensinaram é a história de "siga seu coração", ele é enganoso e uma parte confusa da alma. Na maior parte do tempo é instável e, por isso, não muito confiável. 

Chegou a hora de crescer e ser esticado. Não dá mais para se esconder dentro da sua zona de conforto. Ela é pequena demais para o lugar que você foi chamado para ocupar. Só depende de você chegar lá.