O amor não é o que você aprendeu

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Mesmo que você ainda não tenha descoberto completamente no que acredita, existem alguns fatos que são inegáveis. A Terra é redonda, sem oxigênio não existe vida, Kardashians são a nova monarquia mundial e as leis do universo existem. 

Se você nunca ouviu falar sobre leis do universo, senta aqui, vamos conversar. Você pode achar isso tudo muito doido, ou muito esclarecedor; de qualquer forma te peço que abra seu coração para o que vou contar. 

As leis do universo formam um sistema eterno que rege o universo (essa definição foi bem prolixa) e as consequências de todas as ações praticadas. Elas não estão escritas em lugar algum, nem pertencem a nenhuma religião específica (embora algumas pessoas gostem de chama-las de princípios bíblicos). Simplesmente estão em prática desde que o mundo é mundo. São tão sérias que ciências como física quântica e metafísica tem linhas de estudo específicas sobre o assunto. 

Já viu aquelas experiências com as palavras positivas e negativas, ou a chamada "lei da atração", por exemplo? Então, leis do universo. Mesmo que você seja cético quanto à isso, elas continuam agindo na sua vida. Não tem como fugir. 

Dito isso, eu venho sendo muito confrontada por uma delas, justamente a primeira lição que me ensinaram na vida: 

Ame o seu próximo como a si mesmo
Marcos 12:31 

Preciso ser sincera e contar que com o tempo me tornei realmente boa nisso (amar ao próximo)! Já falei algumas vezes sobre como encontro um propósito gigante no ajudar pessoas e como é impossível enxergar alguma versão da minha vida onde me sinto completamente feliz e completa se não estiver contribuindo para que alguém seja melhor de alguma maneira. 

No geral, todos nós nos importamos com as pessoas ao nosso redor (se você tem dificuldades em sentir que ama as pessoas, fica calmo que logo chegamos aí). Ao menos com as pessoas realmente próximas. Melhores amigos e família, no mínimo. Deixar essas pessoas felizes, fazendo com que elas se sintam amadas e especiais é um desejo natural. E bem saudável! Estamos amando o próximo e seguindo essa lei do universo, ótimo! Certo?

O maior erro no "amar ao próximo"

Errado. Bom, no meu caso era errado. Mesmo passando a vida estando constantemente pensando em maneiras de levar amor ao próximo, eu estava interpretando esse texto de maneira errada. Se formos analisar a frase, existe uma certa linha de proporcionalidade nela. "Amar ao próximo como a si mesmo", entenderam o que eu quero dizer? 

É como se fosse assim: se você se ama 50%, é capaz de amar ao próximo à 50%; se você se ama 100%, é capaz de amor ao próximo à 100%; se você se ama 10%, é capaz de amor ao próximo à 10%. É sempre essa linha de proporcionalidade. A lei age em uma medida de proporção. 

Então, como é possível amar ao próximo quando a gente não se ama? 

Refletindo e passando algumas tantas horas rolando na cama sem sono, percebi que muita gente (incluindo eu) sofre dessa questão em algum grau. Mesmo que você não tenha uma repulsa completa por si mesmo, é meio impossível encontrar alguém que se ame completamente. Então, se a gente não se ama completamente e o amor funciona numa linha de proporção, quer dizer que não estamos conseguindo amar as pessoas por completo. 

Pois é, estamos amando errado. 

Tentando entender melhor a maneira como eu e o mundo experienciamos esse sentimento tão comentado, podemos chegar em dois grupos gerais: os indisponíveis emocionalmente e os dependentes emocionalmente.

Você pode não se encaixar completamente em um deles, mas todos nós (T-O-D-O-S) temos ao menos nuances de algum. 

Quem são os indisponíveis emocionalmente? 

É importante falar que eu não me encaixo nesse grupo. Então, as observações aqui feitas vem da convivência com pessoas indisponíveis emocionalmente, conversas com psicólogos, muitos artigos lidos e observação de relacionamentos onde uma das partes era definida dessa maneira. Então, se você é ou conhece alguém que é indisponível emocional, por favor, fale mais sobre isso nos comentários

Alguém indisponível emocionalmente tem grandes dificuldades em criar conexões genuínas com as pessoas e realmente sentir amor por elas. Não apenas aquele amor romântico, mas também o que sentimos pelos nossos pais e amigos. Aquilo que faz com que nos importemos de forma legítima com alguém. 

Estando nessa definição, é possível que você seja bem egoísta com seu tempo e prioridades, sempre colocando sua felicidade e conforto acima das pessoas com que se relaciona. Sabe quando sua amiga está há meses te convidando para a super festa de aniversário dela e você decide não ir de última hora, não vendo o mínimo problema nisso (e achando um drama enorme ela ter ficado chateada)? 

Ela também se sente sufocada ao se comprometer em relacionamentos, principalmente por achar sentimentos (e falar sobre eles) desconfortáveis. Para ela não faz sentido quando alguém comenta que chorou dias por causa de um amor não correspondido. Faz muito menos sentido saber que alguém chorou dias por ela. Por não criar sentimentos muito profundos por ninguém, sente extrema dificuldade em entender os sentimentos que as pessoas criam. 

Dizer "eu te amo" é algo bem difícil, mesmo que seja desejado. 

Não devemos enxergar quem faz parte desse grupo como vilões. Existem diversas situações que fizeram com que essa dificuldade fosse criada (se vocês quiserem, podemos conversar mais sobre isso em outro post), não se faz por falta de sensibilidade ou maldade

Mas a grande bomba nessa história é que se você sente que tem problemas em amar ao próximo e cultivar amor genuíno pelas pessoas, provavelmente você não se ama.

Entendo que nesse momento sua cabeça deve estar assim: “Não, mas é claro que eu me amo! Eu me valorizo, eu valorizo a minha companhia, eu me dou prioridade”

Vem cá… você realmente AMA a pessoa que é? Realmente AMA quem é por dentro? Realmente AMA a sua alma? Você realmente consegue olhar no espelho, no espelho de dentro, não no de fora, e ficar feliz com o que vê? Talvez essas atitudes que vem classificando como amor próprio, na verdade são uma máscara de egoísmo usada para se proteger de qualquer pessoa ou situação que possa vir te machucar (ou que você não entenda muito bem). 

Muitas vezes temos vergonha de quem somos por dentro. E a gente não admite essa vergonha nem para si mesmo, então essa confissão acaba sendo ouvida só pelo seu travesseiro nas madrugadas de insônia existencial. E isso atrapalha em tudo. Refletindo diretamente na forma como não consegue se entregar nos relacionamentos, no nunca sentir que está realmente sentindo algo por alguém.

Você só está seguindo a linha de proporção. O "amar ao próximo" é completamente bloqueado na sua vida por não conseguir seguir a segunda parte da frase. Por ainda não conseguir se amar num nível saudável, um rio de amor e fluidez é bloqueado antes mesmo de ter a chance de nascer. 

Quem são os dependentes emocionais? 

Os dependentes emocionais são praticamente o oposto dos indisponíveis emocionais. Quem faz parte desse grupo é inseguro e sente que nunca é bom o suficiente. Por causa disso, a aprovação dos outros é extremamente importante. Principalmente se essa pessoa representa uma figura de autoridade na vida dela. 

Dependentes emocionais oferecem ajuda mesmo quando sabem que não podem segurar a barra, tudo porque sentem essa constante obrigação/necessidade de estar agradando as pessoas. Já deu para perceber que rola uma dificuldade absurda de reconhecer o próprio valor aqui, né? É por isso que os dependentes emocionais estão mais suscetíveis a viverem um relacionamento abusivo

Essa galera se doa e ama ao próximo mas, mesmo assim, não se ama

Agora você deve estar assim: “Nossa, Isabelle, está se contradizendo! Nos parágrafos acima falou que se eu consigo amar ao próximo e fazer essas coisas por ele, significa que eu também consigo fazer isso por mim - certo?” Errado... você está agindo com motivações deturpadas.

Quando não conseguimos nos amar (e nos identificamos em algum nível com a dependência emocional), estamos usando o cuidado e o carinho com o próximo como uma forma de aceitação de nós mesmos. 

A aceitação dos outros faz com que você tenha uma falsa sensação de aceitação própria; a admiração dos outros faz com que você tenha uma falsa sensação de admiração própria e assim por diante. Fazemos a coisa certa pelos motivos errados. 

A pior parte é que toda essa doação aos outros em teoria deveria trazer preenchimento, mas só trás mais escassez e o vazio aqui dentro continua aumentando. 

Ah! Não vamos cometer o erro de enxergar o dependente como mocinho da história. Nessa sede por aceitação, muita vezes nos tornamos pessoas controladoras e manipuladoras. Não somos santinhos. 

Mais uma vez, a linha de proporção age. O amor que passamos adiante não é puro. 

A droga do amor

Entendemos o amor errado. Por estarmos quebrando essa lei de proporcionalidade, não estamos tendo relacionamentos que carregam plenitude em si. Na verdade, a maioria deles nos deixa com uma sensação gigante de vazio, justamente porque procuramos algo que está faltando muito na gente. Tentando encontrar isso na outra parte, a frustração é gigante ao não receber o nosso desejo de volta. 

Tornamos a parte do "primeiro preciso ser feliz comigo" mais um clichê não seguido. Estamos juntos, nos sentindo sozinhos. Nosso estoque base de amor está praticamente vazio e o pouco que resta por lá anda bem contaminado. 

Desde que toda essa avalanche de informação e auto análise começou acontecer na minha vida, venho fazendo uma oração: que Deus alinhe as motivações do meu coração e torne claras as razões pelas quais eu faço as coisas que faço. 

Não quero mais viver de um lugar onde todas as minhas ações são minimamente calculadas para que eu seja aceita. Na verdade, estou lutando para que eu possa fazer tudo de um lugar onde já me sinto suficiente amada, então isso transborda dentro de mim. 

Sendo bem realista, sinceramente não acho que um dia (falando por mim) vou conseguir me amar por completo. Acho que sempre vai existir um certo conflito aqui dentro. Ou, quando achar que já estou me amando 100% vou descobrir alguma faceta que precisa ser melhorada (falando de alma, ok?) e isso é a constante evolução sobre a qual já conversamos - sentir dor e ser esticado para chegar em um novo nível e viver tudo outra vez depois de um tempo. Já aceitei essa verdade. 

Mas com certeza existe um nível saudável e real de amor próprio. Um nível sadio de aceitação. Equilíbrio. E o objetivo deve ser atingir esse nível, para fluir de um lugar onde estamos transbordando e por isso conseguimos amar ao próximo genuinamente.

E eu sei que é difícil, tanto para quem ama ao próximo pelos motivos errados (mesmo que sem perceber), quanto para quem não sente que consegue viver essa conexão. É desafiador assumir para nós mesmos que as coisas estão bagunçadas. 

Na maioria das vezes a gente não quer parar para pensar profundamente nessas questões, porque focar nisso dói. Ignorar é mais fácil. 

Mas existe um nível de vida abundante, que a gente merece viver! É muito pouco tempo nessa terra para se contentar com relacionamentos mais ou menos. A gente deve ter direito a sentir algo de verdade. Nascemos para plenitude. Mas é preciso lutar por ela, mesmo sentindo dor. 

Como amar de verdade

Comece se dando uma boa olhada no espelho de dentro. Faça constantes auto análises e se confronte. Pense nas situações da sua infância, como os seus pais te davam (ou não) afeto. Nos relacionamentos e términos mais significativos. Nas verdades que as figuras de autoridade da sua vida te contaram. Como você se enxerga? 

Reconheça seus erros e aquelas áreas onde nem sabe por onde começar a arrumação, busque ajuda. Muita gente tem preconceito com terapia, mas ela é uma das melhores maneiras de cavar fundo na nossa alma. Se cerque de pessoas com quem você possa se abrir, fale de onde dói. E seja consistente. A gente não foi bagunçado em um dia, então as soluções não chegam tão rápido... tudo é desconstruído, para depois ganhar novas formas. Mesmo com recaídas no processo, não desista dele.

Esse é o caminho para sarar a visão que temos de nós mesmos e do mundo, alinhar as motivações do nosso coração, para que possamos viver relacionamentos saudáveis, plenos, abundante e completos. 

Que de onde está doendo, possa sair cura para nossa vida. E que quando a gente estiver curado, possamos transbordar amor. Dessa vez pelos motivos certos. 


P.S.  

Esse texto é especialmente importante para mim. Muitas pessoas queridas da minha vida se machucaram muito por estarem em um desses dois lados da história. Meu desejo é que elas sejam conduzidas para esse post, da mesma maneira que eu fui conduzida a escrevê-lo para cura própria. 

Por isso, se torne um agente de mudança: do fundo do meu coração, peço que se esse texto falou com você, ou te lembrou de alguém, comente e tenha coragem para passar adiante. O amor é bom e precisamos redescobrir isso.