As mulheres que não aprenderam dar errado

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Dia desses estava em um bar conversando com uma amiga que também acabou de se formar na faculdade. Antes que nossos pedidos pudessem chegar na mesa, comentei sobre como todas os outros amigos que estavam mais ou menos nesse momento tinham me confidenciado o fato de estarem se sentindo meio perdidos, além de envergonhados e/ou tristes por isso. Comecei minha cota de confissões da noite falando sobre o quanto era difícil abraçar esse processo de virar adulto oficialmente. Crescer é uma experiência inconveniente

Tanto eu quanto ela somos pessoas extremamente otimistas. Logo, foi um tanto quanto constrangedora e complicada a sequência de confissões daquela noite, juntas elas foram capazes de nos levar a aceitar o fato de que haveria sofrimento na vida. 

Quando assumimos ser alguém otimista, a última coisa na qual se quer pensar é que as coisas vão dar errado e que você (inevitavelmente) vai sofrer. É uma droga pensar no seu plano inicial tão lindo e perfeito não acontecendo como havia sido descrito no papel. 

Não me ache alguém inocente ou hipócrita. É importante entender que tanto eu quanto a maioria das mulheres na minha faixa de idade (vinte e poucos) fomos criadas com a crença de que nascemos destinadas para algo grandioso e único. Com a constante afirmação de que éramos especiais e vivíamos um daqueles roteiros Hollywoodianos (típico dos Millennials). Se corrêssemos atrás dos nossos sonhos seriamos recompensadas e viveríamos algo incrível, sendo realizadas por sermos autênticas. 

Outro ponto é o fato de estarmos nos tornando adultas em plena primavera do empoderamento feminino. Estamos crescendo aprendendo a necessidade de sermos mulheres fortes. Lutar, se fazer ouvida, assumir seu lugar de igualdade na sociedade e seguir em frente são reforços constantes.

Eu amo viver em uma época onde posso passar por uma fase tão importante da vida com estímulos e recursos para me tornar uma pessoa segura do meu papel, empoderada e com uma visão clara da minha identidade, direitos e deveres. Mas toda essa atmosfera, somada às crenças construídas na infância, criam uma pressão absurda. Acabamos nos sentindo extremamente culpadas ao não segurar a onda. Quase desertoras de toda esse padrão de força que nos foi entregue. 

E aí começa um certo tipo de crise quando damos o nosso melhor, fazemos nossa parte, colocamos a cara a tapa, somos verdadeiras e entregamos tudo de nós… mas as coisas não saem como o planejado

Não foi isso que tinham me contado sobre a vida. Não é isso que deveria acontecer quando você vai atrás do que ama. Essa aflição aqui dentro do peito não estava no manual. Porque ela apareceu? Porque ela não passa instantaneamente? Não fomos criadas para sentir dor. 

Entretanto, uma das verdades mais libertadoras que podemos aceitar é: viver dói. A gente vai passar por decepção, desistência, desinteresse, egoísmo, perdas, desilusões, ódio, rejeição, falta. Sem nenhuma opção de escape, uma hora vai doer para caramba

O sonho que você batalhou para construir pode não acontecer como planejado. O emprego dos sonhos pode ser um saco. Aquele relacionamento que era seu mundo pode ser extremamente tóxico. Seus amigos vão te frustrar. Você vai ser iludido. Vai achar que conhece alguém, mas vai ser surpreendido da pior maneira possível. A insegurança e o medo de dar errado vão bater na sua porta. Vai tomar decisões erradas com consequências desastrosas. Vai achar que está todo mundo indo super bem obrigada, enquanto você nem sabe como vai chegar até amanhã. E essa sensação de perder o chão, do inesperado, da agonia de perceber dar errado é inexplicavelmente dolorida

Pelo bem da nossa saúde mental, precisamos entender o quanto antes: por mais que a gente queira, não tem para onde correr. Viver dói. 

Depois de cantarmos todo o refrão de Promiscuous, da Nelly Furtado, tocada por um dos DJs mais incríveis que já presenciei na vida em alguma versão realmente boa que eu nunca tinha ouvido antes, lembrei de uma frase extremamente clichê, mas que se encaixava perfeitamente na nossa discussão: “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional” (segundo o Google Drummond, Gandhi e Renato Russo são os autores da mesma). 

Pela primeira vez desde que me lembro, precisei discordar de uma declaração auto ajuda. Desculpe autor misterioso dessa frase, mas sem rota de fuga, o sofrimento vai chegar

Podemos não viver uma vida miserável, nos jogando pelos cantos sentindo pena de nós mesmos em 97% do tempo (segundo minhas estimativas). Mas é importante viver os outros 3%, sofrer encarando isso como uma parte importante no constante processo de amadurecimento que é viver. Mesmo tendo poder para escolher até onde vamos nos entregar, não dá para simplesmente pular essa desgostosa etapa da evolução

Na minha primeira sessão de terapia contei para psicóloga sobre uma das decisões mais difíceis que eu já havia tomado: colocar ponto final em um relacionamento, que era muito especial para mim, quando percebi estar dependente emocionalmente. Eu estava uma bagunça por dentro mas expliquei para ela o quanto sabia que era importante viver a fase do luto, também de como eu tinha muitas coisas para fazer e isso não era prioridade, enfatizei com convicção a recusa em viver aquela tristeza e constante vontade de chorar. 

Ela me perguntou há quanto tempo tínhamos terminado. “Uma semana”. Ela sorriu, anotou alguma coisa no papel e me olhou nos olhos com uma serenidade surreal: 

— Dê tempo para você. Se permita não querer sair da cama. Você precisa ter paciência com a dor, porque uma hora ela passa. Mas se a gente suprime o sofrimento e bota banca de forte, aquilo fica reprimido lá e uma hora estoura. E quando estoura… é bem feio. 

Ter paciência já é em si uma tarefa desafiadora. Ter paciência com a nossa dor é quase utópico de se especular. Quem tem tempo para ficar mal? Aliás, quem quer abraçar sua dor e aceitar que ela vai ficar hospedada por um tempo? É um nível de consciência que me assusta. 

Sei que aprendemos a engolir o choro e continuar. Também sei que em alguns dias não existe outra opção a não ser essa, mas a gente não pode entrar no caminho de simplesmente ignorar a dor, de abafar e colocar ela debaixo do tapete. 

É preciso sentir todos os sentimentos. Não querer sair no fim de semana para ficar em casa assistindo Netflix e comendo brigadeiro, chorar ouvindo sertanejo e se permitir não sair da cama. Seja sincero ao menos com você e assuma sua dor. Não dá para fugir desse processo e querer ficar imune às futuras consequências. Antes de sentir raiva de si mesmo, entenda que é uma FASE e vai passar. Se dê tempo para processar os acontecimentos. 

No dia em que falei “não podemos mais ser amigos” para uma das pessoas mais legais que conheci, chorei por cinco horas seguidas. Os 40 primeiros minutos dividindo Uber com ela. E eu sei que isso tudo parece muito dramático, mas naquele momento (em um lapso de lucidez e sabedoria) eu sabia que reprimir aquela dor ia me trazer serias consequências depois e como naquele dia já estava tomando decisões difíceis pelo bem da minha saúde emocional, essa entrou no pacote. Então eu chorei. Muito. Depois me forcei ignorar a dor (péssima decisão, meu lapso de lucidez foi bem breve mesmo), mas logo após a sessão de terapia desabei me entregando ao processo. 

E abraçar esse processo quebrou grandes paradigmas na minha vida. Um deles foi o de que eu precisava ser forte o tempo todo.

Quase todo dia eu leio a Bíblia e lá tem uma passagem que vem fazendo cada vez mais sentido para mim. Nela o rei mais sábio que já existiu disserta sobre como existe um tempo certo para todas as coisas na terra, inclusive tempo de chorar e tempo de sorrir. 

Existe um tempo próprio para tudo, e há uma época para cada coisa debaixo do céu: um tempo para nascer e um tempo para morrer; um tempo para plantar e um tempo para colher o que se semeou; um tempo para matar, um tempo para curar as feridas; um tempo para destruir e outro para reconstruir; um tempo para chorar e um tempo para rir; um tempo para se lamentar e outro para dançar de alegria; um tempo para espalhar pedras, um tempo para as juntar; um tempo para abraçar, um tempo para afastar quem se chega a nós; um tempo para andar à procura e outro para perder; um tempo para armazenar e um para distribuir; um tempo para rasgar e outro para coser; um tempo para estar calado e outro tempo para falar; um tempo para amar, um tempo para odiar; um tempo para a guerra, e um tempo para a paz.
Eclesiastes 3:1-8

Por mais difícil e decepcionante que seja, precisamos aceitar que na vida vamos viver tempos de chorar. Então, afunda a cabeça no travesseiro e chora. Coloca seus fones de ouvido, dando play numa sofrência de respeito e deixa doer. Precisamos aceitar que crescer é difícil e vai vir recheado de situações dolorosas.

Mais importante do que isso, não use máscaras com quem importa para tentar esconder as feridas abertas. Mostre onde está ardendo e pergunte se ela também precisa de ajuda. A verdade é que ninguém está bem o tempo todo. É importante demonstrar isso para quem é alguém na nossa vida e se colocar disponível para receber o mesmo de volta. Não estamos tão sozinhos quanto pensamos. 

Entenda bem, não estou dizendo para você se entregar para depressão. De forma alguma! A grande questão é a importância de viver o momento de dor e conseguir colocar para fora tudo o que poderia estar te travando, dessa forma você vai ser capaz de construir uma força genuína vinda de uma melhora sincera, verdadeira e enraizada. O que vai te dar força real para continuar. 

Quando você segue a partir desse lugar de cura, avança muito mais e entra em uma nova estação na sua vida, com novas metas, desafios e perspectivas - até chegar em um estágio onde vai precisar mudar de nível outra vez

Mas para mudar de nível vai ser necessário viver (mais uma vez) o desconforto, algo vai doer. Só que isso te liberta, joga para frente, uma nova estação. Esses ciclos vão acontecer durante nossa existência inteira.

Teria sido ótimo pedir a conta do bar naquela noite podendo chegar à conclusão que uma hora isso para, simplesmente deixa de doer e nós alcançamos um estágio onde não seremos mais esticados. Mas não foi isso que rolou. Na realidade, entendemos que se um dia isso parar significa que estaremos estagnados

E aí, o que você escolhe? Viver nessa zona de conforto querida, numa constante felicidade ludibriada pelo já familiar, ou aceitar o inevitável se jogando numa jornada de estar constantemente indo além, vivendo momentos de muita dor, mas também momentos de alegria e realizações indescritíveis?

Viver dói. E tudo bem ser assim.


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