65% do seu sofrimento é culpa de uma única pessoa

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Esse texto começou em Londres, enquanto estava tomando café e preparando a apresentação final para um curso de marketing digital. Uma das meninas no grupo comentou um termo que ficou na minha cabeça durante os dias seguintes: responsabilidade emocional

Cheguei em casa, li alguns artigos sobre o assunto e tudo fez muito sentido. Citando um dos textos mais conhecidos sobre, a expressão pode ser descrita da seguinte maneira: 

Responsabilidade Emocional é se você tá se envolvendo com alguém, mesmo que seja só sexo, pegue pra si a responsabilidade de não fazê-la sofrer, não seja babaca, não suma, não assuma coisas que não foram ditas. Converse e aja com honestidade.

O desenvolvimento final dele veio algumas semanas depois, quando deixei de ir em uma super festa porque ela me lembrava alguém que foi bem importante, mas destruiu meu emocional num nível surreal. Sabia como as pessoas, cheiros e conversas que rondariam o ambiente me fariam mal. Mesmo tendo a clara noção de tudo que eu "perderia" por não ir, tive certeza de que a minha saúde emocional era mais importante. 

Juntando as duas coisas, comecei perceber algo: a gente está aprendendo a ter responsabilidade emocional com os outros, mas quando é para ser responsável com as nossas próprias emoções... como é que fica? 

A gente sabe ser babaca quando quer

Pensa comigo, como você se sentiria em um relacionamento onde o outro te faz passar por situações extremamente estressantes (sendo que a maioria delas poderia ter sido evitada), fazendo com que se questione o seu valor o tempo inteiro; expondo suas fragilidades de forma constante, criando um ambiente de bastante dor, cheio de teorias baseadas no quanto você realmente nem é tão bom assim?

Minha primeira reação seria pensar: Meu Deus, que babaca. Preciso me livrar desse ser humano imediatamente, ele só tá sendo tóxico e atrasando minha vida!

Pois é, querido leitor, muitas vezes nós mesmos somos essa pessoa em nossas vidas. Olha que demais! Quem diria que temos tanto potencial, hein? 

Quantas vezes você já se pegou entrando em relacionamentos onde sabia que iria sofrer? Quantas outras se colocou em situações onde, desde o início, tinha a plena consciência da capacidade contida ali para trazer suas maiores inseguranças e casos mal resolvidos à tona? Quantas vezes continuou falando com pessoas que faziam com que você nunca se sentisse bom o suficiente? Quantas vezes aceitou uma proposta, mesmo sabendo que ela detonaria com o seu senso de valor próprio?

Posso responder por mim? Muitas. Inúmeras. Incontáveis. Perco de vista. É só por aqui, ou por aí você também já foi culpado de alguma dessas atitudes? 

Como pode um homem reclamar quando é punido por suas próprias decisões?

Não é só o relacionamento que cultivamos com o outro que deve ser tratado de forma que venha crescer na base do respeito, responsabilidade e cuidado. A gente precisa começar a ter respeito, responsabilidade e cuidado em primeira pessoa. Você pode estar sendo o maior babaca da sua vida no momento.

Um dos meus coaches prediletos, Tiago Brunet, diz que mais de 65% dos nossos problemas são causados pelas nossas próprias ações e palavras. SESSENTA E CINCO POR CENTO! Mais da metade dos nossos problemas tem uma única fonte: nós mesmos

A gente se desrespeita muito. Se coloca em situações completamente desnecessárias, muitas vezes sem nem perceber. Sofremos por decisões próprias, mas viramos especialistas em colocar a culpa no outro.

É obvio que existem momentos onde a nossa dor tem início numa terceira pessoa, mas na maioria das vezes (65% delas, bom lembrar) somos os próprios causadores. Pura irresponsabilidade emocional.

Ao meu ver, precisamos puxar para gente essa tarefa de começar a cuidar melhor de si mesmo. Vamos ter que conviver conosco pela eternidade, de maneira ininterrupta. É melhor fazer com que esse relacionamento seja incrível

Farinha pouca meu pirão primeiro

Adaptando um pouco o texto citado no primeiro parágrafo, ter responsabilidade emocional consigo mesmo é basicamente o seguinte: não se faça sofrer, não seja um babaca com você mesmo, não assuma coisas que nem se quer foram ditas. Faça auto análises e seja honesto consigo. 

Trocando em miúdos e transcrevendo esse texto do sempre didático e querido A Mente é Maravilhosa:

A responsabilidade emocional por si mesmo envolve assumir o comando da situação, não só dos comportamentos que levamos adiante, mas também daquilo que pensamos e sentimos. Em suma, de nossa existência. 

Deu para entender? A gente precisa parar de se colocar (e aceitar estar) em situações que nos fazem mal. Não podemos confundir força e coragem com irresponsabilidade emocional.

Se você ainda não se sente preparado para falar com alguém, ir em algum lugar ou voltar a fazer certa atividade... se respeite! Não force. Ir além no momento errado pode gerar consequências muito mais complicadas de lidar do que o sentimento que já está sendo tratado. 

Não tem problema nenhum colocar a sua saúde mental em primeiro lugar. Mesmo que para isso você precise tomar medidas drásticas, muitas das quais as pessoas envolvidas não vão entender.

bloquei no WhatsApp, excluí no Facebook, deixei de frequentar lugares e manter amizades relacionadas. Por ser boba e imatura? De maneira nenhuma. Mas por me respeitar e saber onde estou dentro do processo de cura em certas emoções e situações. 

Essas atitudes vão permanecer pelo restante da minha vida? Talvez sim, talvez não. Pode ser que, em algum momento, eu me sinta confortável de voltar a falar com alguém, ou frequentar certos lugares e ouvir determinada música. Se rolar, que bom! E se não rolar, tudo bem também. Em ambos os casos vou estar sendo responsável emocionalmente comigo mesma. 

Existe um momento nessa jornada onde a gente precisa peitar as decisões relacionadas ao nosso bem estar emocional. E isso, de maneira nenhuma, é ser egoísta.

Na verdade, é se conhecer muito bem, sabendo exatamente quais são os gatilhos capazes de te derrubar. É melhor ter alguém emburrado comigo, do que ficar dias chorando sem sair da cama por culpa da bendita pessoa. Essa fase já passou, né? 

E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará

A chave para não ser mais um carrasco com você mesmo? Auto conhecimento. 

Mais uma vez eu enfatizo: se for possível, faça terapia. Ter um profissional como parceiro na jornada de desvendar e entender sua alma possui um valor inestimável.

Se não for possível (e até se você faz terapia, esse é um ótimo exercício contínuo), faça auto análise. Questione o motivo de sentir o que sente e fazer o que faz. Passe bastante tempo sozinho, refletindo sobre seus medos, decisões, sonhos, escolhas. Leia tudo o que puder sobre auto conhecimento e as questões específicas que te cercam. Se torne um eterno estudioso de você mesmo. 

Essa é a única maneira de entender seus limites e perceber quais seus gatilhos. Além disso, quando passamos tempo nos conhecendo descobrimos nuances que fazem com que nos tornemos apaixonados (de um jeito bom) por nós mesmos. A partir daí começamos a enxergar o nosso valor e depois disso fica extremamente difícil ficar por perto de quem não é capaz de ver o mesmo. O que eu acho ótimo. 

Faça uma limpeza na sua vida, sem medo de deixar para trás coisas, situações e pessoas com as quais já estava acostumado. A sua saúde emocional é MUITO mais importante do que tudo isso. A verdadeira liberdade é conquistada abrindo mão das algemas que aprendemos a usar diariamente. 

Chega de ser babaca com você mesmo. Vamos levar esse relacionamento para um outro nível?

Perdoar é extremamente injusto

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Acho um tanto quanto engraçadas e curiosas algumas das definições da palavra "perdão" no dicionário. As primeiras descrições não são acompanhadas de muitas surpresas. "Absolver pena, dívida, ofensa", super ok. Mas o último ponto da longa de lista de explicações sobre o que significa perdoar, me deixou um tanto quanto desnorteada, parecia não fazer sentido: "Evitar trabalho, esforço etc. a si mesmo; poupar-se"

Depois de analisar por um bom tempo todas as palavras da frase, comecei a refletir sobre um trecho polêmico de um dos meus livros prediletos (Maravilhosa Graça, do Philip Yancey. Qualquer um que quer entender mais sobre perdão (e ser perdoado) + ama referências de filosofia, teatro, música, cinema e história vai amar loucamente esse livro - sem exageros ou drama nessa recomendação): 

O perdão pode ser injusto - e ele é, por definição -, mas pelo menos fornece um meio de interromper a dedicação cega da retribuição.
— Philip Yancey

O perdão não funciona no mundo real

Perdoar não é um ato natural. E não, essa não é uma afirmação hiperbólica. É inegável admitir que vivemos na lei da selva, aqui se faz, aqui se paga - vence o mais forte. Então, aprendemos que se alguém é mal com você, essa pessoa deve pagar por isso. 

É só pararmos para ver o tanto de ditados populares que seguem justamente essa linha de "você vai pagar exatamente pelo o que fez":  Tudo o que vai, volta. Tomou, levou. Quem diz o que quer, ouve o que não quer

Deixando bem claro, eu não tenho dúvidas de que todos nós pagamos pelas consequências de absolutamente cada uma das nossas ações, porque o Universo (e as suas leis) não deixa nada escapar. 

Mas, ao meu ver, estamos deixando essa mentalidade roubar uma boa parte da leveza na nossa vida. Já reparou que quando alguém nos magoa fazendo algo capaz de nos deixar tristes ou chateados, queremos ajudar o próprio Universo a fazer essa pessoa pagar?

Ao pensar no bendito ser humano, temos profundos sentimentos de raiva, ódio e uma vontade inegável de que ela seja triste e tenha uma vida menos feliz do que a nossa (ver esse querido sofrendo um pouquinho não parece nada mal, certo?). Queremos desesperadamente um acerto de contas, onde estaremos por cima e eles sempre alguns degraus abaixo. 

O veneno escondido na falta de perdão

A vingança é uma paixão de acerto de contas. É um desejo ardente de devolver tanto sofrimento quanto o que alguém lhe infligiu. [...] O problema da vingança é que ela nunca alcança o que deseja; nunca chegará ao empate. A justiça nunca acontece. A reação em cadeia iniciada por cada ato de vingança sempre segue seu curso desimpedida. Ela aprisiona ambos, o injuriado e o injuriador, a uma escada rolante de sofrimento. Ambos são impedidos de prosseguir na escada quando se exige paridade, e a escada não para nunca, nunca deixa ninguém descer.
— Lewis Smedes

Eu costumo dizer que não perdoar alguém é tomar veneno esperando que o outro morra. E é aí que entra o motivo de, para mim,  aquela última definição do dicionário ter se tornado tão clara: perdoar é evitar trabalho e esforço de si mesmo.

Quando estamos gastando tempo e energia retendo perdão e não liberando essa pessoa do nosso coração e mente, estamos nos contaminando com pensamentos e sentimentos negativos toda vez que pensamos a respeito do sujeito. O que cria aquela sensação de que tá tudo bem, mas algo tá estranho (ela é mais comum do que você imagina). 

Perdoar não é nada fácil e em nenhum momento desse texto quero negar essa verdade. Não é algo que acontece de forma orgânica, principalmente dentro do modelo de sociedade no qual todos nós vivemos. 

Na verdade, perdoar é um processo que começa com uma decisão. A decisão de deixar a pessoa ir. Criando uma resolução clara de ao pensar nela, de simplesmente dizermos: "eu te deixo ir, eu te perdoo". Indo contra o costume de se entregar a uma enxurrada de pensamentos ruins sobre como ela errou com você. Aceite que passou (mesmo que ainda sinta dores). 

Enquanto isso não acontecer, teremos todos aqueles sentimentos ruins, provocados pela pessoa, constantemente reavivados ao pensarmos nela, vermos uma postagem, esbarramos sem querer na rua. Um constante mal estar que toma conta de todo o seu corpo, capaz de começar ao som de um único nome (você sabe qual). 

Perdoar é a decisão mais difícil e injusta que existe

Então ela vai escapar? Bom, ninguém escapa de nada. Tudo gera consequências. Perdoar não é aprovar o que foi feito, mas simplesmente confiar que Deus/Universo vai cuidar de tudo e não é seu papel fazer justiça com as próprias mãos. 

Perdoar também não cria um relacionamento, você só aceita deixar de ser consumido pela dor e raiva que vem deixando sua capacidade de amar extremamente prejudicada, minando seu potencial em absolutamente todas as áreas da vida. 

Se você não viu A Cabana, preciso avisar que estou prestes a dar um mega spoiler (e se você ainda quer ver A Cabana sem spoilers, pode pular essa parte).

[SPOILER] Em um determinado momento do filme, o pai da menininha que morreu precisa perdoar o assassino da filha. Então ele vira para o Pappa (que no caso é Deus) e fala: "Eu disse que eu perdoo, mas eu ainda sinto raiva". O Pappa explica que isso é normal, ninguém consegue se curar do sentimento instantaneamente, quando você perdoa alguém você simplesmente solta o pescoço dela, mas talvez precise falar "eu te perdoo" mil vezes antes de ficar mais fácil. A única coisa certa é que vai ficar mais fácil. [/SPOILER]

E é exatamente isso. Quando eu decido perdoar alguém, eu decido liberar essa pessoa, mas a maneira como ela me faz sentir não vai simplesmente embora. Preciso assumir o compromisso de repetir para mim mesmo, sempre que a pessoa passar pela minha cabeça: "eu perdoo você, eu perdoo você"

Mesmo com todas as minhas explicações, é bem possível que você ainda ache isso tudo muito injusto, já que essa pessoa simplesmente não merece ser perdoada. Mas, abraçando as palavras do meu amado Philip Yancey: PERDOAR É INJUSTO. 

É muito melhor ser feliz do que ter razão. Além do mais, enquanto não liberamos alguém através do perdão, ela está constantemente presente na nossa vida, mesmo que vocês já não se falem mais. Já que suas energias estão inquestionavelmente focadas nela. 

Essa questão de perdoar não é de maneira nenhuma uma coisa simples. [...] Dizemos: ‘Muito bem, se o outro se arrepender e pedir meu perdão, eu perdoarei, eu desistirei’. Fazemos do perdão uma lei de reciprocidade. E isso não funciona nunca. Porque ambos dizemos a nós mesmos: ‘O outro tem de tomar a iniciativa’. Daí, fico observando como um gavião para ver se o outro vai sinalizar-me com os olhos ou se posso detectar alguma pequena indicação nas entrelinhas que demonstre que está arrependido. Estou sempre pronto a perdoar...mas nunca perdoo. Sou justo demais.
— THIELICKE, Helmut. Waiting, cit., p.112

Aceita que dói menos

Então, perdoe. Aceita que o perdão é algo que precisa ser implementado na nossa vida como uma prática diária. É um processo para o qual precisamos nos entregar.

Ao entrarmos nesse processo de perdoar, liberar pessoas e não ficarmos mais nutrindo ódio ou sentimentos ruins por ninguém, nos tornamos pessoas mais leves e felizes com a nossa vida. Adotando uma visão muito melhor e mais clara do mundo, já que aceitamos que as pessoas vão errar e causar decepções. 

Perdoar não é esquecer o que aconteceu. Mas é dar um passo para que, no futuro, você possa olhar para cicatriz do machucado que alguém fez e aquilo não doa mais

Tome um passo (corajoso) para uma jeito de viver mais leve, simples; recheado de amor e reciprocidade do mesmo. Quando você passa a ser melhor em perdoar pessoas, se torna melhor no auto perdão. Aquele história de ter graça com a gente mesmo.

Além do mais, quando tiramos alguém do nosso coração, do espaço morto que só nos faz mal ocupado por ela, abrimos espaço para receber novas pessoas e bons sentimentos. o lugar antes ocupado por tristeza ódio e rancor, se torna livre e limpo para receber (ótimas) novidades.

Então, decida liberar pessoas hoje. Perdoe mesmo parecendo injusto. Você merece uma vida mais leve e feliz.

O amor não é o que você aprendeu

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Mesmo que você ainda não tenha descoberto completamente no que acredita, existem alguns fatos que são inegáveis. A Terra é redonda, sem oxigênio não existe vida, Kardashians são a nova monarquia mundial e as leis do universo existem. 

Se você nunca ouviu falar sobre leis do universo, senta aqui, vamos conversar. Você pode achar isso tudo muito doido, ou muito esclarecedor; de qualquer forma te peço que abra seu coração para o que vou contar. 

As leis do universo formam um sistema eterno que rege o universo (essa definição foi bem prolixa) e as consequências de todas as ações praticadas. Elas não estão escritas em lugar algum, nem pertencem a nenhuma religião específica (embora algumas pessoas gostem de chama-las de princípios bíblicos). Simplesmente estão em prática desde que o mundo é mundo. São tão sérias que ciências como física quântica e metafísica tem linhas de estudo específicas sobre o assunto. 

Já viu aquelas experiências com as palavras positivas e negativas, ou a chamada "lei da atração", por exemplo? Então, leis do universo. Mesmo que você seja cético quanto à isso, elas continuam agindo na sua vida. Não tem como fugir. 

Dito isso, eu venho sendo muito confrontada por uma delas, justamente a primeira lição que me ensinaram na vida: 

Ame o seu próximo como a si mesmo
Marcos 12:31 

Preciso ser sincera e contar que com o tempo me tornei realmente boa nisso (amar ao próximo)! Já falei algumas vezes sobre como encontro um propósito gigante no ajudar pessoas e como é impossível enxergar alguma versão da minha vida onde me sinto completamente feliz e completa se não estiver contribuindo para que alguém seja melhor de alguma maneira. 

No geral, todos nós nos importamos com as pessoas ao nosso redor (se você tem dificuldades em sentir que ama as pessoas, fica calmo que logo chegamos aí). Ao menos com as pessoas realmente próximas. Melhores amigos e família, no mínimo. Deixar essas pessoas felizes, fazendo com que elas se sintam amadas e especiais é um desejo natural. E bem saudável! Estamos amando o próximo e seguindo essa lei do universo, ótimo! Certo?

O maior erro no "amar ao próximo"

Errado. Bom, no meu caso era errado. Mesmo passando a vida estando constantemente pensando em maneiras de levar amor ao próximo, eu estava interpretando esse texto de maneira errada. Se formos analisar a frase, existe uma certa linha de proporcionalidade nela. "Amar ao próximo como a si mesmo", entenderam o que eu quero dizer? 

É como se fosse assim: se você se ama 50%, é capaz de amar ao próximo à 50%; se você se ama 100%, é capaz de amor ao próximo à 100%; se você se ama 10%, é capaz de amor ao próximo à 10%. É sempre essa linha de proporcionalidade. A lei age em uma medida de proporção. 

Então, como é possível amar ao próximo quando a gente não se ama? 

Refletindo e passando algumas tantas horas rolando na cama sem sono, percebi que muita gente (incluindo eu) sofre dessa questão em algum grau. Mesmo que você não tenha uma repulsa completa por si mesmo, é meio impossível encontrar alguém que se ame completamente. Então, se a gente não se ama completamente e o amor funciona numa linha de proporção, quer dizer que não estamos conseguindo amar as pessoas por completo. 

Pois é, estamos amando errado. 

Tentando entender melhor a maneira como eu e o mundo experienciamos esse sentimento tão comentado, podemos chegar em dois grupos gerais: os indisponíveis emocionalmente e os dependentes emocionalmente.

Você pode não se encaixar completamente em um deles, mas todos nós (T-O-D-O-S) temos ao menos nuances de algum. 

Quem são os indisponíveis emocionalmente? 

É importante falar que eu não me encaixo nesse grupo. Então, as observações aqui feitas vem da convivência com pessoas indisponíveis emocionalmente, conversas com psicólogos, muitos artigos lidos e observação de relacionamentos onde uma das partes era definida dessa maneira. Então, se você é ou conhece alguém que é indisponível emocional, por favor, fale mais sobre isso nos comentários

Alguém indisponível emocionalmente tem grandes dificuldades em criar conexões genuínas com as pessoas e realmente sentir amor por elas. Não apenas aquele amor romântico, mas também o que sentimos pelos nossos pais e amigos. Aquilo que faz com que nos importemos de forma legítima com alguém. 

Estando nessa definição, é possível que você seja bem egoísta com seu tempo e prioridades, sempre colocando sua felicidade e conforto acima das pessoas com que se relaciona. Sabe quando sua amiga está há meses te convidando para a super festa de aniversário dela e você decide não ir de última hora, não vendo o mínimo problema nisso (e achando um drama enorme ela ter ficado chateada)? 

Ela também se sente sufocada ao se comprometer em relacionamentos, principalmente por achar sentimentos (e falar sobre eles) desconfortáveis. Para ela não faz sentido quando alguém comenta que chorou dias por causa de um amor não correspondido. Faz muito menos sentido saber que alguém chorou dias por ela. Por não criar sentimentos muito profundos por ninguém, sente extrema dificuldade em entender os sentimentos que as pessoas criam. 

Dizer "eu te amo" é algo bem difícil, mesmo que seja desejado. 

Não devemos enxergar quem faz parte desse grupo como vilões. Existem diversas situações que fizeram com que essa dificuldade fosse criada (se vocês quiserem, podemos conversar mais sobre isso em outro post), não se faz por falta de sensibilidade ou maldade

Mas a grande bomba nessa história é que se você sente que tem problemas em amar ao próximo e cultivar amor genuíno pelas pessoas, provavelmente você não se ama.

Entendo que nesse momento sua cabeça deve estar assim: “Não, mas é claro que eu me amo! Eu me valorizo, eu valorizo a minha companhia, eu me dou prioridade”

Vem cá… você realmente AMA a pessoa que é? Realmente AMA quem é por dentro? Realmente AMA a sua alma? Você realmente consegue olhar no espelho, no espelho de dentro, não no de fora, e ficar feliz com o que vê? Talvez essas atitudes que vem classificando como amor próprio, na verdade são uma máscara de egoísmo usada para se proteger de qualquer pessoa ou situação que possa vir te machucar (ou que você não entenda muito bem). 

Muitas vezes temos vergonha de quem somos por dentro. E a gente não admite essa vergonha nem para si mesmo, então essa confissão acaba sendo ouvida só pelo seu travesseiro nas madrugadas de insônia existencial. E isso atrapalha em tudo. Refletindo diretamente na forma como não consegue se entregar nos relacionamentos, no nunca sentir que está realmente sentindo algo por alguém.

Você só está seguindo a linha de proporção. O "amar ao próximo" é completamente bloqueado na sua vida por não conseguir seguir a segunda parte da frase. Por ainda não conseguir se amar num nível saudável, um rio de amor e fluidez é bloqueado antes mesmo de ter a chance de nascer. 

Quem são os dependentes emocionais? 

Os dependentes emocionais são praticamente o oposto dos indisponíveis emocionais. Quem faz parte desse grupo é inseguro e sente que nunca é bom o suficiente. Por causa disso, a aprovação dos outros é extremamente importante. Principalmente se essa pessoa representa uma figura de autoridade na vida dela. 

Dependentes emocionais oferecem ajuda mesmo quando sabem que não podem segurar a barra, tudo porque sentem essa constante obrigação/necessidade de estar agradando as pessoas. Já deu para perceber que rola uma dificuldade absurda de reconhecer o próprio valor aqui, né? É por isso que os dependentes emocionais estão mais suscetíveis a viverem um relacionamento abusivo

Essa galera se doa e ama ao próximo mas, mesmo assim, não se ama

Agora você deve estar assim: “Nossa, Isabelle, está se contradizendo! Nos parágrafos acima falou que se eu consigo amar ao próximo e fazer essas coisas por ele, significa que eu também consigo fazer isso por mim - certo?” Errado... você está agindo com motivações deturpadas.

Quando não conseguimos nos amar (e nos identificamos em algum nível com a dependência emocional), estamos usando o cuidado e o carinho com o próximo como uma forma de aceitação de nós mesmos. 

A aceitação dos outros faz com que você tenha uma falsa sensação de aceitação própria; a admiração dos outros faz com que você tenha uma falsa sensação de admiração própria e assim por diante. Fazemos a coisa certa pelos motivos errados. 

A pior parte é que toda essa doação aos outros em teoria deveria trazer preenchimento, mas só trás mais escassez e o vazio aqui dentro continua aumentando. 

Ah! Não vamos cometer o erro de enxergar o dependente como mocinho da história. Nessa sede por aceitação, muita vezes nos tornamos pessoas controladoras e manipuladoras. Não somos santinhos. 

Mais uma vez, a linha de proporção age. O amor que passamos adiante não é puro. 

A droga do amor

Entendemos o amor errado. Por estarmos quebrando essa lei de proporcionalidade, não estamos tendo relacionamentos que carregam plenitude em si. Na verdade, a maioria deles nos deixa com uma sensação gigante de vazio, justamente porque procuramos algo que está faltando muito na gente. Tentando encontrar isso na outra parte, a frustração é gigante ao não receber o nosso desejo de volta. 

Tornamos a parte do "primeiro preciso ser feliz comigo" mais um clichê não seguido. Estamos juntos, nos sentindo sozinhos. Nosso estoque base de amor está praticamente vazio e o pouco que resta por lá anda bem contaminado. 

Desde que toda essa avalanche de informação e auto análise começou acontecer na minha vida, venho fazendo uma oração: que Deus alinhe as motivações do meu coração e torne claras as razões pelas quais eu faço as coisas que faço. 

Não quero mais viver de um lugar onde todas as minhas ações são minimamente calculadas para que eu seja aceita. Na verdade, estou lutando para que eu possa fazer tudo de um lugar onde já me sinto suficiente amada, então isso transborda dentro de mim. 

Sendo bem realista, sinceramente não acho que um dia (falando por mim) vou conseguir me amar por completo. Acho que sempre vai existir um certo conflito aqui dentro. Ou, quando achar que já estou me amando 100% vou descobrir alguma faceta que precisa ser melhorada (falando de alma, ok?) e isso é a constante evolução sobre a qual já conversamos - sentir dor e ser esticado para chegar em um novo nível e viver tudo outra vez depois de um tempo. Já aceitei essa verdade. 

Mas com certeza existe um nível saudável e real de amor próprio. Um nível sadio de aceitação. Equilíbrio. E o objetivo deve ser atingir esse nível, para fluir de um lugar onde estamos transbordando e por isso conseguimos amar ao próximo genuinamente.

E eu sei que é difícil, tanto para quem ama ao próximo pelos motivos errados (mesmo que sem perceber), quanto para quem não sente que consegue viver essa conexão. É desafiador assumir para nós mesmos que as coisas estão bagunçadas. 

Na maioria das vezes a gente não quer parar para pensar profundamente nessas questões, porque focar nisso dói. Ignorar é mais fácil. 

Mas existe um nível de vida abundante, que a gente merece viver! É muito pouco tempo nessa terra para se contentar com relacionamentos mais ou menos. A gente deve ter direito a sentir algo de verdade. Nascemos para plenitude. Mas é preciso lutar por ela, mesmo sentindo dor. 

Como amar de verdade

Comece se dando uma boa olhada no espelho de dentro. Faça constantes auto análises e se confronte. Pense nas situações da sua infância, como os seus pais te davam (ou não) afeto. Nos relacionamentos e términos mais significativos. Nas verdades que as figuras de autoridade da sua vida te contaram. Como você se enxerga? 

Reconheça seus erros e aquelas áreas onde nem sabe por onde começar a arrumação, busque ajuda. Muita gente tem preconceito com terapia, mas ela é uma das melhores maneiras de cavar fundo na nossa alma. Se cerque de pessoas com quem você possa se abrir, fale de onde dói. E seja consistente. A gente não foi bagunçado em um dia, então as soluções não chegam tão rápido... tudo é desconstruído, para depois ganhar novas formas. Mesmo com recaídas no processo, não desista dele.

Esse é o caminho para sarar a visão que temos de nós mesmos e do mundo, alinhar as motivações do nosso coração, para que possamos viver relacionamentos saudáveis, plenos, abundante e completos. 

Que de onde está doendo, possa sair cura para nossa vida. E que quando a gente estiver curado, possamos transbordar amor. Dessa vez pelos motivos certos. 


P.S.  

Esse texto é especialmente importante para mim. Muitas pessoas queridas da minha vida se machucaram muito por estarem em um desses dois lados da história. Meu desejo é que elas sejam conduzidas para esse post, da mesma maneira que eu fui conduzida a escrevê-lo para cura própria. 

Por isso, se torne um agente de mudança: do fundo do meu coração, peço que se esse texto falou com você, ou te lembrou de alguém, comente e tenha coragem para passar adiante. O amor é bom e precisamos redescobrir isso.